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Texto de Artur Soares
Sabe-se que
a Terra e o Mar, ou seja, o planeta em que nos encontramos, fornece tudo a todo
o homem do que necessita para viver, sem quaisquer falhas. E aquele que crê em
Deus e O tem como o Criador, não
duvida que assim é. Só que, como afirmou um Bispo português há mais de quarenta
anos, “de tudo o que a Terra e o Mar fornecem, chegava e sobrava para toda a
Humanidade se, cada homem levasse para casa somente o que precisasse”.
O homem é
naturalmente açambarcador. Vive engessado no egocentrismo, não distingue o egoísmo
normal dos cinco ou seis anos de idade e os mais de quinze depois: sente-se
exclusivo e, portanto, só o seu eu existe.
Mas há excepções: nos santos ou nos que caminham para a santidade - os
primeiros só consomem para sobreviver e, os outros são generosos. Excluindo
estes, existe (ainda) outro género de homem – o avaro.
Conta-se que um avaro, chamou dois advogados e
disse-lhes: “não quero deixar nada a ninguém, nem a familiares. Quando morrer
levarei o dinheiro nos bolsos para a tumba”. Um dos advogados sossegou-o e o
homem, poucos meses depois faleceu. Findas as cerimónias o segundo advogado
pergunta ao colega: “como resolveste o problema do dinheiro deste cliente?” - “A
mando dos herdeiros passei-lhe um cheque e leva-o no bolso” - respondeu.
Há quem não
conheça, não veja e não se aperceba dos outros. Esses, não conhecem a fome de
ninguém e se dela ouvem falar, consideram-na tão normal como se estivessem
fartos. Jesus Cristo no Seu tempo, quando usava os pontos mais altos e as
praias para pregar – pois não tinha universidades para fugir das intempéries –
teve de enfrentar, no período da Páscoa, o problema da fome de uma multidão que
O seguiu e escutou. Por ter sido
assim, interrogou os apóstolos sobre as possibilidades de comprar pão e matar a
fome daquela gente. Que não. Não havia possibilidades. O dinheiro que tinham
era muito pouco para tão grande necessidade, pelo que, só Ele se podia
alimentar se, a generosidade de “um rapazito” fosse possível, uma vez que ele
tinha numa bolsa “cinco pães de cevada e dois peixes”.
Assim, Cristo, “tomou os pães e os peixes e, tendo
dado graças”, distribuiu-os para toda a multidão, que ficou saciada e ainda
sobraram doze cestos de pedaços de pães que Cristo pediu para recolher. Ora
Jesus Cristo só quis anunciar à multidão que Ele era o Verdadeiro Pão da Vida.
Porque todo o pão material é fornecido para todos os homens pela Terra e pelo
Mar. Logo, é aos homens que compete, não fazer o milagre dos pães e dos peixes
como Cristo fez, mas fazer o milagre/dever da justa distribuição, do nulo
açambarcamento, do nulo e infantil egoísmo, das atitudes rapaces dos poderosos,
dos usurários das sociedades secretas e dos avaros que levam cheques nos bolsos
a caminho da tumba.
Os poderosos do mundo, dão, sempre
procuraram dar em vez de pão, pedras e granadas e em vez de
peixe, ódio e armas. O homem de hoje exibe em qualquer canto os cinco pães
de cevada, mas não é capaz de, dos seus pães oferecer um ao vizinho, ao amigo,
ao seu semelhante.
O mundo
deste século, segundo o Programa Alimentar Mundial, tem 20 milhões de pessoas
que podem morrer de fome até ao fim deste ano de 2017. A guerra do Iémen, do
Sudão do Sul e Nigéria e a seca na Somália, totalizam estas ossificações
humanas. O director da UNICEF, identificou que destes 20 milhões, milhão e meio
são crianças. Ora tal situação, tal desgraça, levou já a que o chefe das
operações humanitárias da ONU, afirmasse que é impossível chegar às vítimas,
pelo que a situação só vai piorar, avisa, “uma vez que a guerra civil entre o
Governo e rebeldes xiitas, a Arábia Saudita lançou uma intervenção militar, que
impede a chegada de alimentos às populações”.
Os poderosos deste mundo, os
fabricantes de armas e não fabricantes de pães, são a vergonha da civilização,
são a antítese do Bem, são os que matam o milagre dos cinco pães de cevada e
dos dois peixes, na sacola do “rapazito” do evangelho.
A guerra dos
poderosos no Iémen já tem cerca de 2000 mil crianças mortas, 2500 mutiladas,
1600 crianças recrutadas para combater - números fornecidos pela
UNICEF, que denuncia ao mundo, às nações e aos Governos, onde ninguém é
ninguém. Também estamos na Páscoa, existe esta concreta multidão com fome no
mundo e, no tempo que corre, nem tão pouco há, para eles, os cinco pães de
cevada e os dois peixes para distribuir.
" No Alcance do Sonho "